Em francês, "été" é tanto "verão" quanto o particípio passado do verbo "ser" ("être"): "fui".
"Um verão escaldante, ardente" / "Um fui ardente". Um eu que no passado era borbulhante e prestes a explodir como um verão que cega. Philippe Garrel torna esse passado esquecido presente com seu filme.
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O azul utópico no filme remeteu-me a este soneto de Baudelaire:
A vida anterior
Muito tempo habitei sob átrios colossais
Que o sol marinho em labaredas envolvia,
E cuja colunata majestosa e esguia
À noite semelhava grutas abissais.
O mar, que do alto céu a imagem devolvie,
Fundia em místicos e hieráticos rituais
As vibrações de seus acordes orquestrais
À cor do poente que nos olhos meus ardia.
Fundia em místicos e hieráticos rituais
As vibrações de seus acordes orquestrais
À cor do poente que nos olhos meus ardia.
Ali foi que vivi entre volúpias calmas,
Em pleno azul, ao pé das vagas, dos fulgores,
E dos escravos nus impregnados de odores,
Em pleno azul, ao pé das vagas, dos fulgores,
E dos escravos nus impregnados de odores,
Que a fronte me abanavam com as suas
palmas,
E cujo único intento era o de aprofundar
O oculto mas que me fazia definhar.
E cujo único intento era o de aprofundar
O oculto mas que me fazia definhar.
(Tradução Ivan Junqueira)
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